domingo, 30 de junho de 2019

Chile e Colômbia fizeram jogo que sintetiza o que é o mais alto nível no futebol mundial

Velocidade, organização, fluidez e muitas chances criadas foram os componentes do melhor jogo da Copa América até aqui. 

29/06/2019 13h51  
Chile e Colômbia fizeram jogo que sintetiza o que é o mais alto nível no futebol mundial
foto: Marcos Ribolli 
O que difere um jogo de Liga dos Campeões, ou do pelotão de frente da Premier League, do restante das partidas? Olhando apenas para o campo, não para as sensações e emoções que você sente. A resposta está no jogo entre Chile e Colômbia, melhor da Copa América.
Muito se diz que o futebol europeu, em especial aquele escalão formado por no máximo quinze clubes, é superior ao futebol latino ou a outras ligas nacionais. Pouco se explica o porquê. A emoção gerada pelo evento pode ser diferente, a torcida pode ter um comportamento aqui ou lá. Mas o jogo, apenas ele, tem componentes que o diferem. É mais rápido, menos faltoso e mais criativo, exatamente como foi esse jogo.
Qualquer time poderia ter passado, dado o nível de organização e chances criadas pelos dois. Para a Colômbia, fica a ideia de crescer cada vez mais. Para o Chile, a defesa de um inédito tri.

Melhores momentos: Colômbia 0 (4) x (5) 0 Chile pelas quartas de final da Copa América
Surpreende o fato da a Colômbia apresentar tantos padrões, em especial os defensivos, com Carlos Queiroz no comando por apenas alguns meses. Fisicamente o time também se impõe, e apostou na marcação alta, assim como fez com a Argentina: o pelotão de frente do 4-1-4-1 buscava fechar as linhas de passe do Chile. Se não conseguiram roubar a bola perto da área, toda vez que roubavam a bola na intermediária tentavam acelerar o jogo, buscando o pivô de Falcao e os movimentos de James, partindo da direita para o centro.
Pressão alta da Colômbia no primeiro tempo — Foto: Leonardo Miranda
Pressão alta da Colômbia no primeiro tempo — Foto: Leonardo Miranda
O Chile respondeu a essa pressão com um meio-campo talhado para sair jogando. Ideia que Bielsa implantou, Sampaoli solidificou e Rueda mantém. Poucos passes, toques de primeira, sempre procurando o homem livre, ou seja, o jogador que fica uns metros mais à frente, de costas para o marcador. Essa função foi de Aranguiz, que sempre buscava essa lacuna. Vidal, dono de gol anulado e melhor da partida, jogou numa função mais recuada. Era ele que vinha buscar a bola da zaga, com Pulgar ao seu lado.
Chile no ataque, pronto para sair limpo com a bola — Foto: Leonardo Miranda
Chile no ataque, pronto para sair limpo com a bola — Foto: Leonardo Miranda 
Rueda explicou em coletiva que essa dinâmica visava liberar Aranguiz porque Vidal, craque como é, seria naturalmente o mais marcado. E deu certo. O Chile teve 58% da posse de bola e criou 6 chances no primeiro tempo, sempre com essa saída limpa. Muitas vezes, Aranguiz fazia o elo entre meio e o ataque, com Sánchez e Fuenzalida sempre pertos.
Arturo Vidal comemora classificação do Chile — Foto: Marcos Ribolli
Arturo Vidal comemora classificação do Chile — Foto: Marcos Ribolli 

O jogo é mais rápido quando há mais padrão - e espaço para sair dele

Todos esses comportamentos, essas ideias descritas acima, estavam bem martelados na cabeça dos jogadores. Assim, a execução da ideia fica rápida. O jogador joga sem pensar. Pense na saída do Chile: não é mais fácil dar um passe de primeira sabendo que vai ter um jogador na sua frente e livre para receber a bola do que esperar o time avançar um pouco? Essa agilidade de raciocínio se traduziu num jogo ao melhor estilo do Campeonato Inglês: co várias “estocadas”, ou seja: times chegando ao ataque e se defendendo, com a bola passando pouco pelo meio-campo.
Isso torna a partida mais dinâmica, porque os dois times chegam muito, e também faz com que a criação de jogadas fique menos com os meias e mais com o primeiro volante e os zagueiros. Sabe o que o Brasil fez contra o Paraguai com um homem a mais? É mais ou menos o que o City ou o Bayern fazem semanalmente em suas ligas. Você pode gostar ou não, e isso se dá muito ao gritante e injusto desnível financeiro que existe entre esses quinze clubes europeus mais ricos e o resto do mundo. Mas reclamar não muda a realidade: ela é como é, e mudá-la para melhor exige entendê-la a fundo.
A realidade é que o Chile irá defender o tri-campeonato da Copa América no que foi o melhor jogo do torneio até aqui. O tipo de jogo dos centros mais estruturados. O tipo de futebol que nós merecemos ver sempre.

Por Leonardo Miranda
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol

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