Brasil cria, erra e mostra que falta articulação a um meio-campo que não funciona
Contra a Venezuela, Brasil criou e teve dois gols anulados. Arthur e Casemiro não funcionaram juntos, e Coutinho foi anulado.
19/06/2019 06h01
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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foto: Reuters
O Brasil criou 19 finalizações ao gol, teve dois gols (bem) anulados e trocou 679 passes, o que se traduz em 63% do tempo de jogo com a posse de bola. Além disso, sofreu apenas cinco finalizações, sendo apenas uma certa. Números que ajudam a entender que o empate contra a Venezuela não foi um jogo ruim, ou de baixo nível. Se uma bola tivesse entrado, a narrativa
e as críticas teriam sido outras. É sempre assim.
Melhores momentos: Brasil 0 x 0 Venezuela pela segunda rodada da Copa América 2019
O que o jogo foi é um duelo de um time com uma ideia, mas que precisa de ajustes para funcionar em sua plenitude. E isso seria colocar, chutando, umas 8 dessas finalizações ao gol para chegar a um ou dois gols. Se defensivamente o Brasil de Tite é seguro e sofre muito pouco, o ajuste está no meio-campo. Ele passa por nomes, por posicionamento tático e também por ideia de jogo.
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O que é e porque falta articulação de jogada na Seleção
Começando pela ideia. Tite já disse diversas vezes que gosta que Daniel Alves e Filipe Luis participem da articulação das jogadas. O momento de articulação é diferente da armação ou conclusão. É a hora que a jogada ganha corpo, toma seus primeiros contornos. Será pelo lado ou por dentro? Quem está melhor encaixado para receber a bola? Temos que tocar rápido ou devagar? Veja que são decisões muito mais mentais que físicas, e Dani e Filipe já mostraram ter esse perfil.
O problema é que falta um jogador no meio com esse tipo de tomada de decisão. Alguém que aproxime dos zagueiros e responda a essas perguntas olhando para o campo do adversário, desenhando essa jogada, fazendo os meias e atacantes trabalharem. Na prática, o 4-1-4-1 do Brasil com a posse de bola tem muita gente dando profundidade ao time (os marcados em amarelo) e pouca gente vindo ocupar a imensa faixa central que a Venezuela deixa.
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Quem articula o jogo do Brasil? — Foto: Leonardo Miranda
Você pode estar se perguntando se esse é o papel de Arthur, contratado pelo Barcelona como uma espécie de substituto do Iniesta. A má notícia é que Arthur não é esse tipo de jogador. Ele não é um articulador de jogadas, é muito mais um jogador que gira e preserva a posse de bola. Para ser um articulador, ele precisa sempre estar à frente da linha da bola, num espaço vazio onde teria espaço e tempo para pensar as jogadas.
Esse jogador também não é Philippe Coutinho. No Barcelona, ele é criticado quando joga por dentro, compondo um dos volantes do 4-1-4-1. Foi a mesma função na qual deu muito errado na Copa, e para ajustá-lo ao time, Tite dá mais liberdade de movimentos, sem compor tanto o alinhamento. Podemos dizer que o Brasil é um misto entre 4-2-3-1 e 4-1-4-1, mas como se defende muito pouco porque é um time seguro, pouco se pode ver o posicionamento.
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Thiago Silva Arthur Brasil x Bolívia Copa América — Foto: Pedro Martins / Mowa Press
Tudo isso, na prática, forma uma cratera no meio-campo. A imagem abaixo é um outro exemplo desse posicionamento. Aqui, Thiago Silva toma para si o papel de articulação e avança na mesma faixa de Casemiro e Arthur. Ele vai dar um passe longo para Richarlison, já que viu que ele começou a se deslocar lá na faixa direita, numa condição em que pode sair na frente do gol. Isso é articulação. Isso é pensar o jogo.
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Cratera no meio-campo do Brasil — Foto: Leonardo Miranda
Agora ficam algumas perguntas:
- Há um espaço imenso entre Coutinho e Casemiro. Não era para o Arthur ocupar essa região?
- Contra um time fechado contra a Venezuela, é necessário ter um volante especialista em marcação como Casemiro?
- Se a ideia é que os laterais tenham liberdade de articulação, porque eles foram pouco para o meio no primeiro tempo?
As respostas ajudam a entender os vinte primeiros minutos promissores, de intensidade e muita criação, e os outros vinte e cinco minutos de muita posse e pouca finalização. O Brasil parece ter um problema de ritmo, o que Tite já identificou em algumas coletivas: começa bem, mas se não faz logo o gol, bate a ansiedade e o time tende a se desorganizar.
Contundência, efetividade, traduzir isso em gols é fundamental. Tivemos um aproveitamento muito abaixo, o goleiro fez uma defesa, tem que trabalhar - Tite, na coletiva após o jogo
Tite busca mudanças no 2º tempo e time melhora
Foi para responder a essas perguntas que Tite mudou. Com Gabriel Jesus no lugar de Richarlison, o time se redesenhou: duas linhas de quatro com Coutinho mais perto de Firmino. Os dois ficavam mais na frente sem a bola, e Gabriel entrou como um típico ponta esquerdo, fechando o lado como na imagem.
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Brasil se reorganizou com duas linhas de quatro — Foto: Leonardo Miranda
Com a bola, a ideia era abrir o campo. E aqui vale reconhecer o bom trabalho defensivo que a Venezuela fez: duas linhas de quatro bem coladas entre si, sempre com muita gente ao redor da bola para evitar uma saída de qualidade e zagueiros atentos para interceptar e sair na linha de impedimento, evitando que os passes dos laterais encontrassem os atacantes livres. Tite tentou quebrar essa organização com dois jogadores bem abertos, recebendo já na linha lateral e trocando com Coutinho ou Firmino.
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Pontas bem abertos e laterais vindo por dentro no segundo tempo — Foto: Leonardo Miranda
O momento é de ajustes no meio-campo. Quem sai?
Os dois anulados saíram de jogadas assim, é verdade. Mas foram anulados, e o resultado sempre contra. O Brasil não foi mal no segundo tempo, e Arthur fez um grande jogo quando teve Fernandinho ao seu lado, melhorando muito a saída e permitindo que ele ficasse numa faixa mais à frente. O mesmo com os laterais, que procuraram mais o meio-campo.
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Everton Brasil Venezuela — Foto: Edgard Garrido/Reuters
Mas o Brasil segue sem articular bem suas jogadas. O torcedor vive uma espécie de divórcio nada amigável com Tite, e na grande sessão descarrego que é um jogo de futebol da seleção quando ela não vence, sobra sempre pra alguém. Mas Renato Augusto não é esse jogador de articulação que o time tanto precisa? E como fisicamente vem caindo, não é Lucas Paquetá quem melhor desempenha esse papel?
Num elenco com tantos atacantes que sabem jogar na base do drible, com Éverton como importante peça no segundo tempo, com uma defesa tão forte, falta o ajuste do meio-campo. Ele pode vir com Casemiro, que entrega muito sem a bola, e com Arthur, que sempre será importante. O quebra-cabeças é quem sai para a entrada desse articulador. Ou se Coutinho consegue preencher esse papel. Perguntas para o duelo agora decisivo contra o Peru.
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