A nota mais clássica do futebol heavy metal que conquistou a Europa
Título europeu do Liverpool veio com a combinação entre o jogo acelerado e louco de Jürgen Klopp e a consistência defensiva vista na Premier deste ano
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
02/06/2019 11h24
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foto: Getty Images
Dos 18 gols que o Tottenham levou nessa Liga dos Campeões, 11 vieram antes dos 20 minutos de jogo. Marca que se repetiu com o pênalti, questionável mas validado pela nova regra, que Salah cobrou. Os Spurs poderiam ter pressionado, insistido no ataque com a desvantagem. Tirando a pressão final que Alisson salvou, o jogo foi favorável e tranquilo ao Liverpool, que inclusive construiu mais chances.
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O que difere ano passado desse ano é a consistência defensiva que Klopp conseguiu colocar na equipe. O Liverpool sofre menos, concede menos chances, controla mais jogos. É o violino que acalma a parte energética da orquestra. É a ponte que dá o tempo de respirar para um novo refrão
Com 37% de posse de bola no primeiro tempo, o Liverpool construiu oito chance e sofreu apenas uma. Antes, sofria quatro e uma era o gol
Estruturalmente falando, o Liverpool campeão é o mesmo 4-3-3, com escapadas rápidas ao ataque. Os mecanismos ofensivos, a grande pressão após perder a bola, raramente deixando o adversário confortável, estão ali. Na imagem abaixo você vê o meio-campo desmanchando para pressionar a saída do Tottenham e recuperar a bola numa região mais alta de campo. É a mesma ideia desde 2015.
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Pressão do Liverpool contra o Tottenham — Foto: Leonardo Miranda
A linha de defesa permanece adiantada, quase no meio-campo, mas ao contrário do início do trabalho de Klopp, fica mais alinhada e fechada para conter essa profundidade e impedir que os atacantes escapem. A imagem do time sem a bola abaixo mostra essa organização: o meio se bagunça para pressionar, mas a defesa fica mais contida.
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Defesa do Liverpool — Foto: Leonardo Miranda
E se a pressão não dá certo? E se a linha se desorganiza? Existe o último recurso: o jogador. Foram 77 milhões de libras gastas em Virgil van Dijk. O primeiro foi o melhor jogador da Premier League e é o melhor zagueiro do mundo. O poder de recuperação, de levar atacantes para determinado lado e tirar o espaço de atuação foi preponderante para equilibrar esses riscos do modelo de jogo. Na final, a bola que tirou de Son na chance mais cristalina dos Spurs.
Virgil van Dyke não sofreu nenhum drible nesta temporada. É o único zagueiro na Europa a conseguir essa marca
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van Dijk, zagueiro do Liverpool — Foto: Leonardo Miranda
Foram 72,5 milhões de euros gastos em Alisson. O melhor do jogo, fundamental com seis intervenções importantes na pressão do Tottenham, quando ainda estava 1 a 0. O bom goleiro salva o time quando todo mundo errou lá atrás, e o Liverpool pagou o preço nas falhas de Karius ano passado. Era fundamental, para o time ser menos arriscado, ter um goleiro seguro - e há quem ainda não entenda o porquê de Alisson ser titular da seleção…..
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Alisson Liverpool Tottenham Liga dos Campeões — Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters
Apenas seis goleiros não levaram gols em finais de Liga dos Campeões desde 2000: Buffon, Dida, Vítor Baía, Victor Valdés, Júlio César e agora Alisson
Não existe equilíbrio sem tempo. O Liverpool da primeira temporada era um time arriscado, mas intenso, que chegou à final da Liga Europa levando muitos gols. O da segunda temporada era instável, 4º lugar na Premier. Fosse treinador de um clube brasileiro, Klopp seria demitido após perder de 2 a 1 para o Crystal Palace, em abril de 2017. Os argumentos?
- Precisamos de um "fato novo" para conquistar a vaga para a Liga dos Campeões.
- O trabalho não é bom. Perdeu uma final e não ganhou nada em dois anos.
- O time não joga bem. Toma muitos riscos, não tem padrão tático.
- Firmino tá na posição errada. Não é atacante, é meia. Professor pardal.
- O time é instável, precisamos de alguém mais sanguíneo.
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Roberto Firmino, Klopp e Henderson com a taça da Liga dos Campeões da Europa no desembarque em Liverpool — Foto: Reuters/Craig Brough
Não existe isso no Brasil. Aqui o jogo é sempre maior que o todo. No Liverpool, o "todo" de Klopp era maior que aquela derrota, que poderia ser o 3 a 1 para o Leicester ou até a perda da Liga dos Campeões ano passado. Desenvolver jogadores, unir áreas de administração, estabelecer processos, fazer o clube arrecadar mais, conquistar a torcida...é o tal do planejamento. A gestão racional, que sabe que correções de rumo sempre existem. Primeiro com a saída de Coutinho, fisicamente inapto para esse tipo de jogo que combinava mais com Salah. Depois com Van Dyke. Agora com Fabinho e Alisson. Klopp jamais seria campeão sem isso, e o Liverpool não teria sido campeão sem ele.
Jurgen Klopp se junta a Unai Emery, Diego Simeone, Rafael Benitéz, José Mourinho, Giovanni Trapattoni, Bob Paisley, Udo Lattek, Carlo Ancelotti, Marcelo Lippi e Alex Ferguson como técnicos com quatro finais de torneios europeus. Um dos maiores da história.
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Jurgen Klopp — Foto: Getty Images
Nada é pelo acaso. Para que o heavy metal de Jugen Klopp pudesse conquistar a Europa foi preciso tempo. Inteligência, persistência e confiança. E também uma boa dose de música clássica.
https://globoesporte.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2019/06/02/a-nota-mais-classica-do-futebol-heavy-metal-que-conquistou-a-europa.ghtml?fbclid=IwAR0OHbDoE7sATLokrHNt6JhIA9seYFFsl2GynpQVp3gTrh6Tiz61z261Jc0
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