quarta-feira, 6 de março de 2019

A questão não é ter ou não a bola, mas sim o que fazer com ela

Santos e Fluminense tiveram quase 80% da posse de bola, mas não venceram seus jogos. O problema é do estilo ou da posse de bola?

Por Leonardo Miranda
A questão não é ter ou não a bola, mas sim o que fazer com ela
foto: Lucas Merçon 
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Sempre que um time que preza pelo ataque e pela posse de bola perde, surgem questionamentos quanto à eficácia do estilo e competência dos técnicos. Aconteceu nesta terça com o Santos de Sampaoli e o Fluminense de Diniz. O desempenho ruim de ambos abre dois questionamentos: de um lado, ter a bola passa a ser ineficaz ou entra no divã. Ou é o estilo que irá salvar o futebol brasileiro da mesmice.
Mas esse diagnóstico polarizado esconde a verdadeira questão: não basta apenas ter a bola, mas é preciso saber o que fazer com ela.
A ideia de que "ter a bola" é um caminho mais curto para jogar bem e bonito é uma ideia incompleta. Toda equipe precisa tomar decisões para chegar ao gol e desequilibrar o adversário. Como criar movimentos sincronizados para furar defesas? Os jogadores chegam na área para finalizar com rapidez ou de forma mais cadenciada? Como transformar a troca de passes em algo agressivo o suficiente para superar 9 adversários dispostos a matar qualquer ataque, como na imagem abaixo?
Bloqueio do Antofagasta contra o Fluminense — Foto: Leonardo MirandaBloqueio do Antofagasta contra o Fluminense — Foto: Leonardo Miranda
Bloqueio do Antofagasta contra o Fluminense — Foto: Leonardo Miranda
Santos e Fluminense foram incapazes de responder essas questões. A equipe de Sampaoli trocou 302 passes na segunda etapa, mas acertou o gol apenas duas vezes. O Fluminense criou 17 chances de gol, e acertou 9. De nada adiantou o Santos ter tocado muitas vezes a bola se chega na área - a região onde os gols são feitos - com apenas dois jogadores. Eles estão desmarcados? Têm espaço para receber e finalizar?
Bloqueio do River Plate contra o Santos — Foto: Leonardo Miranda
Bloqueio do River Plate contra o Santos — Foto: Leonardo Miranda
Jogar "com a bola" não é fácil. Montar um time com uma proposta ofensiva e dominante dá trabalho. É preciso ter jogadores tecnicamente bons ou em boa fase. Quem está com a bola precisa saber para quem tocar, o que envolve deslocamentos e mobilidade de quem não em a posse. Essa teia de movimentos, feita de modo rápido, é o que Tite chama de “jogar por memória”. Colocar essa ideia em campo envolve tempo, porque precisa de erro, acerto ou correção. Também precisa de entendimento do grupo, e por fim, de concentração para aproveitar as chances criadas. Ou seja: é caro e demora.
O tema extrapola o campo. Dos 736 clubes no Brasil, pouco menos de 50 têm calendário completo. Apenas 15 têm faturamento acima de R$ 100 milhões. Sem Estadual, há apenas 4 títulos em disputa e tudo fora desse espectro é considerado fracasso. A fatia do futebol que oferece condições para que um time respeite o processo e tenha tempo para tratar bem a bola é muito pequena. Clubes precisam de resultado. Na maioria das vezes, ele vem mais fácil com futebol de bloco baixo, velocidade na retomada da bola e abnegação de espaços. É prático e é barato.
Felipão Sampaoli — Foto: BRUNO ULIVIERI/ESTADÃO CONTEÚDO
Felipão Sampaoli — Foto: BRUNO ULIVIERI/ESTADÃO CONTEÚDO 
Por isso demonizar uma equipe que vence com menos passes ou apelo estético é tão errado. Assim como não é certo avacalhar Sampaoli e Diniz por fazerem diferente. Eles têm o respaldo da diretoria e da torcida para implementar esse modelo, custe o que custar.
Mas não é porque esses clubes apostaram nessa filosofia que todos os clubes são obrigados a fazer o mesmo.
Santos e Flu não venceram porque jogaram mal. Com a bola. Foram incapazes de responder questões que times rápidos e fechados fazem melhor. No fim, o futebol é democrático e se resume a escolhas. Goste ou não, há vários modos de jogar e vencer. Nenhum deles é medíocre. Muitas vezes, é só um instinto de sobrevivência. Sem aquele contra-ataque maroto do clube pequeno contra o grande, nem condições de disputar o jogo ele teria. Pé no chão é o melhor remédio para o radicalismo.
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