segunda-feira, 16 de julho de 2018

Jogar e vencer: a França impõe sua história na Copa do Mundo

Existe o futebol sonhado e o futebol jogado. A França pouco imaginou, mas jogou muito para impor respeito com dois títulos de Copa do Mundo

Jogar e vencer: a França impõe sua história na Copa do Mundo

REUTERS/Darren Staples
Por Leonardo Miranda
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Existe o futebol sonhado e o futebol jogado. O primeiro não tem fim. Começa no apito do árbitro e povoa um imaginário de história e jogadas que acontecem apenas na fértil imaginação de quem sente o jogo como torcedor. A cada Copa do Mundo, alguns times entram para o futebol imaginado como um suspiro de poesia. Donos de jogadas fantásticas que elevam a imaginação até o gol, a catarse do jogo.
O futebol jogado é diferente. Ele é mais cru, real e nem sempre justo. Aliás, quase sempre não é justo. Há momentos chatos onde a bola precisa ser tocada de lado. Momentos onde até o craque erra tudo. E momentos de puro êxtase, que só nos damos conta que são preciosos depois. O futebol sonhado é como um bom filme: recorta os momentos chatos e joga luz sob os momentos legais, manipulando a imagem para causar uma sensação que a realidade não nos dá.
Se fosse filme, a França seria um documentário. Direto, objetivo, nu. Não há nada de muito romântico num time que sai da Copa do Mundo e cumpre seu principal objetivo: vencer. É o que há de mais nobre e mais real que o futebol e a vida nos oferece. A medalha no peito cria histórias e rende carreiras e famas que serão reprisadas ao longo da história. Daqui a 20 anos, lembraremos daquela França de Kanté ou de Pogba que ganhou da Argentina e do Uruguai e brecou o sonho de duas surpresas - Bélgica e Croácia. Lembraremos sim que o time não jogou tão bem e foi pragmático quando há talento e contexto para render mais.
Mas pergunte ao francês mais ranzinza na Champs Elysees hoje: pouco importa se o time não encantou ou deu matéria para nossos sonhos. A França sempre quis a taça e jogou para tal. A trajetória durante a Copa mostra uma equipe muito madura e consciente de si. Em 7 jogos, os franceses manipularam seus adversários como um cirurgião corta uma veia. Contra os pequenos, gols em momentos decisivos. Se não precisava forçar contra a Dinamarca, mata o jogo num insosso empate.
Viu uma Argentina na frente e precisava fazer mais gols que ela para passar. Pavard, o lateral, apareceu no bico da área num lance que se desenhava para um escanteio. Ele não sabia se a bola ia cair no seu pé ou não, e um chute a gol daquela distância seria muito improvável. Mas o simples fato de correr uns metros a mais e surgir lá, de surpresa, já o credencia a algo a mais.
É esse detalhe que separa um time campeão de outro. O time campeão não joga sob a expectativa de encantar, mas sim de vencer. Toma o encantamento ou o jogar bem como um reflexo do casamento entre suas peças. Dentro desse contexto, a França casou suas peças com perfeição. Se você olhar bem, não há condições para o time jogar com longas trocas de passes ou em contra-ataques bonitos de ver. Pogba, Matuidi e Kanté são jogadores de força e marcação, que saem e finalizam bem. Griezmann não é um camisa 10, tampouco um segundo atacante.
O time fica no meio-termo entre contra-ataque e ataque. Uma equipe que pressiona e morde com intensidade. Faz os gols em saídas bem rápidas, mas também sabe pensar suas jogadas. NO tatiquês, podemos chamar esse tipo de futebol de “reativo”. Pois reage ao adversário. Dá campo para um Modric ou um Rakitic. Parece que eles têm liberdade, mas é tudo brincadeira. É uma teia para que eles tenham a bola e algum francês chegue, roube a bola e saia bem rápido ao ataque. A imagem abaixo ilustra esse movimento, que também tem um nome bem técnico: “pressing”.
Pogba marcando em cima de Rakitic (Foto: Leonardo Miranda)
Pogba marcando em cima de Rakitic (Foto: Leonardo Miranda)
É um estilo hermético. A França deixa que o adversário tente imaginar mais e opera sob a lógica da realidade. Quer vencer, nada mais. Um estilo mais duro, mas não intencional. A França bi-campeã do mundo é um time sobretudo forjado na derrota. A dura eliminação para a Alemanha, em 2014, se deu num lance fortuito no Maracanã, onde Hummels pulou mais que todo mundo. 4 anos depois, Varane fez o mesmo contra a Bélgica. Mas nenhuma dor foi maior que perder a Eurocopa para uma trágica Portugal na própria França. Ali, o elenco entendeu que a França não precisava apenas jogar: precisava vencer.
E venceu, com justiça.
A Copa do Mundo não termina hoje. Ela será imaginada e interpretada para sempre. Iremos fantasiar cada toque mágico de Modric ou cada roubada de bola de Kanté. Precisamos desse futebol imaginado para viver. Porque o futebol fora da imaginação é chato, dramático, surpreendente, injusto, maluco e sofrido. Ou seja: é o esporte mais próximo de nossas vidas. 
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