Assim como 1990, Inglaterra contradiz sua tradição tática na semifinal da Copa
Famosos por serem os criadores do 4-4-2 no título de 1966, ingleses só chegaram a semifinais de Copa usando sistemas com 3 zagueiros
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Infografia
Por Leonardo Miranda
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Está perto, mas ainda não está em casa. O canto em tom irônico dos ingleses virou febre numa Copa do Mundo em que ninguém esperava um time que fosse tão longe. A Inglaterra surpreendeu. Esta é a primeira semifinal de Copa desde 1990, algo estranho para quem teve por anos uma geração com Rooney e Beckham. Se havia pouca expectativa, há muita similaridade com a também surpreendente campanha de 1990: os times jogavam quase que no mesmo esquema tático.
A Inglaterra sempre teve uma forte identificação com o 4-4-2. Foi lá que esse sistema nasceu, no título de 1966. O técnico Alf Ramsey teve a ideia de puxar Peters e Ball para o meio-campo. Assim, o time ficava mais compacto na defesa e tinha presença de área. Todo mundo começou a jogar assim na Inglaterra. O Liverpool, tetracampeão da Liga dos Campeões na década de 1970, espalhou a ideia para toda a Europa. O famoso “4-4-2 com duas linhas de quatro”, que comentaristas tanto falam, se tornou identitário. Era tão inglês como um “fish and chips” ou um chazinho das 5.
Em 1990: mudança de sistema durante a Copa
Vinda de fracassos (não diga!) na Euro de 88 e Copa de 86, a Inglaterra chegou na Copa de 90 sem expectativas. Havia críticas sobre a forma conservadora de jogo, preconizada no antigo 4-4-2 com duas linhas de quatro. No fim da década de 1980, a forma mais moderna de jogar futebol era com um líbero. Ele comandava a marcação individual e dava liberdade ao ataque, que jogava em velocidade. A moda era tão grande que o relatório da FIFA aponta que das 24 equipes do torneio, 19 jogavam assim - incluindo o Brasil.
O técnico Bobby Robson resistia. A pressão era imensa - e os ingleses estavam no grupo da morte. Na estreia, um empate contra a Irlanda, no qual a bola ficou em jogo por 50 MINUTOS - se você acha que essa Copa está chata, imagina aquela. No jogo seguinte, contra a favorita Holanda, Robson se rendeu: Mark Wright jogou como líbero, e o empate em 0 a 0 foi visto como positivo. O sistema deu mais liberdade a Gascoigne, meia ofensivo que articulava todas as jogadas.
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Inglaterra de 1990: Butcher como líbero contra a Alemanha (Foto: Leonardo Miranda)
A Inglaterra despachou Bélgica e Camarões com um sistema nada inglês numa época em que se questionava muito o futebol do país, dominado pelos hooligans. Muitos dizem que a semifinal, perdida nos pênaltis para a Alemanha, seria o começo de uma brusca mudança no país. A Premier League foi criada dois anos depois. E o 4-4-2 seria abolido de vez após Arsene Wenger chegar ao Arsenal, em 1996.
Em 2018: a abundância de ideias da Premier na Copa
Se não aconteceu durante o torneio, o 5-3-2 com o qual a Inglaterra mede forças contra a Croácia hoje é um reflexo da riqueza de ideias da Premier League. Tottenham, Chelsea e Manchester City jogam assim, e o técnico Gareth Southgate comandava o trabalho de renovação no sub-21 com o sistema enquanto a Inglaterra dava seu pior vexame: a eliminação na Euro de 2016, para a Islândia. Jogando no velho 4-4-2.
"Jogado" no cargo após o escândalo com Allardyce (outro fiel ao velho sistema), Southgate teve apoio e tempo para colocar as ideias dos clubes na seleção. A Inglaterra de hoje é um pouco como o time de 1990: há talento e segue o que há de mais contemporâneo no futebol atual. Basta ver o trio de zaga: Walker é lateral e foi puxado para a zaga por Guardiola. Dele Alli e Lingard são meias ofensivos, de tabela rápida e velocidade, e jogam mais recuados. Kane, artilheiro como Lineker em 1990, é um centroavante rápido, veloz e goleador.
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Inglaterra de 2018: lateral na zaga, atacantes como volantes e alas ofensivos (Foto: Leonardo Miranda)
Essa é só a terceira semifinal de Copa do Mundo dos ingleses, que inventaram o futebol e ganharam o título quando sediaram o torneio. Se em 1966 o time foi inovador, os ingleses só conseguem chegar longe quando contradizem sua própria história. Talvez seja a senha para deixar o passado no lugar dele: o passado. Gareth Southgate já faz história - pela primeira vez, os ingleses venceram uma disputa de pênaltis na Copa. E podem chegar a uma final de Copa bem longe dos estigmas e mitos de um futebol mais conhecido pelo fracasso que sucesso.
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