A Copa do Mundo da bola parada
Organização das defesas, acesso à informação e evolução do atacante explicam por que a Copa marcou o sucesso das jogadas nas quais a bola não passa de pé em pé
A bola parada foi decisiva na Copa do Mundo de 2018. 71 dos 169 gols marcados saíram de escanteios, faltas ou pênaltis - Shaun Botterill / Getty Images
O árbitro apita a parada do jogo. A bola é posicionada no canto do campo. No miolo da área, bem em frente ao gol, nove jogadores se empurram, puxam e esperam a cobrança do escanteio. Na batida da bola, Harry Kane se desloca para a esquerda e espera a bola encontrar sua testada com a direção das redes. Dos seis gols do artilheiro da Copa, cinco vieram em lances de bola parada. Radiografia que dá o tom de um torneio recheado de gols construídos em jogadas onde a bola não rolou de pé em pé.
Não foram poucos os jogos decididos por escanteios, cobranças de falta ou pênaltis. Juntos elas formam a bola parada, momento do jogo responsável pela maior fatia de tentos nesta Copa. Dos 169 gols marcados no torneio, 72 foram marcados dessa forma. É uma participação de 42% sobre o total. Quase metade. Eis um novo recorde: é a Copa do Mundo com mais gols marcados assim na história, segundo a Fifa. A campeã anterior era a Copa de 1998, com 62 gols oriundos de lances de bola parada, ou 36% do total. A impressão se reforça pelo fato de muitos jogos terem sido decididos em lances assim. O duelo entre Dinamarca e Peru foi decidido por uma cobrança de lateral na área. O Japão venceu a favorita Colômbia num pênalti e num escanteio.
O número é alto se comparado às principais escolas de futebol no mundo. Nas principais ligas da Europa, os gols de bola parada são importantes, mas não tão influentes no resultado final de um jogo. No último Campeonato Inglês, apenas 26% dos gols saíram de lances assim. No espanhol, a participação sobe para 36%. Nem no criticado e faltoso futebol brasileiro o número tão gritante: 32% dos gols. “Bolas paradas se provaram como uma importante alternativa de jogo nesta Copa”, disse Andy Roxburg, membro do Comitê de Estudos Técnicos da Fifa na Copa.
>> França é a segunda seleção mais eficiente da Copa do Mundo

Harry Kane, da Inglaterra, terminou a Copa do Mundo como artilheiro graças à sua capacidade de converter bolas paradas em gols - Ryan Pierse / Getty Images
Num Mundial marcado pela organização das defesas, colocar a bola na rede virou uma missão árdua. Aquele velho clichê, de que "não há mais bobo no futebol", foi renovado pela realidade. De fato, o futebol está mais nivelado. E não se trata de uma queda de qualidade das seleções de mais tradição, mas dcrescimento de seleções como Islândia ou Senegal. Em 2018, elas possuem acesso à softwares de análise de desempenho, acompanhamento dos adversários com vídeos e estatísticas e metodologias mais avançadas de treino. O intercâmbio também é importante. Das 32 equipes da Copa, apenas a Inglaterra foi composta de jogadores em suas ligas locais. A troca de conhecimento amplia o leque de estratégias e possibilidades de se jogar bola.
A arma mais comum para medir forças com os times grandes é a defesa. Equipes como Irã, Dinamarca e Suécia souberam jogar de forma eficiente sem a bola. Deixaram a marcação alta de lado e passaram a fechar a própria área. O objetivo era não sofrer gols e jogar para o lado de lá a responsabilidade de correr atrás do placar. A riqueza das defesas exigiu mais dos favoritos nessa Copa. Foi preciso um plano mais complexo para desequilibrar o adversário. O Mundial castigou os times que valorizaram a posse. A Espanha, ícone do “tiki-taka”, foi campeã de toque de bola. Teve, em média, 780 passes por cada jogo. A questão não é o tempo que se passa com a bola, mas o que se faz com ela. Em seus quatro jogos, os espanhóis chutaram apenas 21 vezes a gol – uma média de 149 passes a cada mísero chute. “As nações pequenas jogam de forma defensiva porque é mais fácil treinar defesa que ataque. Isso faz com que o jogo fique mais difícil para os grandes”, disse Thomas Hitzlpenger, ex-zagueiro da Alemanha, em coletiva de imprensa promovida pela Fifa.
Num contexto em que fazer gols virou um problema exponencial, lançar mão das alternativas que o jogo apresenta é fundamental. Os times grandes viram na bola parada uma forma de causar o desequilíbrio que não conseguiram com a bola no pé. Na bola parada não se mede mais a qualidade com os pés. O jogo vira um xadrez de mínimos detalhes no qual sincronia, estratégia e concentração são valiosos. Foi no detalhismo nas bolas paradas que os grandes conseguiram se sobressair. Dos doze tentos marcados pela Inglaterra, absurdos nove surgiram de faltas, escanteios e pênaltis. “Nós gastamos muito tempo treinando os mínimos detalhes de lances assim”, detalhou o meio-campista Loftus-Cheek, reserva da equipe.
>> Castigada fisicamente, Croácia correu "uma partida" a mais do que a França

Mario Mandzukic abre o placar da final da Copa do Mundo contra a Croácia. O gol contra partiu de uma bola parada cobrada pela França - Pool / Getty Images.
A insistência também foi outro fator preponderante. Entrou em campo o know-how de jogos grandes que só as seleções de peso têm. Varane e Umtiti jogam no Real Madrid e Barcelona, respectivamente. A cada semana, competem no mais alto nível do futebol europeu. Sabem que todo momento do jogo pode ser proveitoso. Logo, não têm medo ou se abalam com erros técnicos. Na batida da bola contra Uruguai e Bélgica, os dois fizeram os tentos que levaram a França até a final. Uma vivência fundamental também para impedir os gols de bola parada do adversário. Se o futebol se desenha como um árduo jogo de bolas paradas, saber sofrer e usar recursos a seu favor é ouro.
Harry Kane é o artilheiro da Copa do Mundo, com seis gols. Abaixo dele, Cristiano Ronaldo e Lukaku aparecem com quatro. Cavani e Dzyba têm três. Em comum, todos possuem gols de bola parada de um típico centroavante: impulsão para subir mais do que os zagueiros e força para testar a bola. Nenhum deles é aquele tanque na área, paradão, só na espera pela bola. Surge aí um novo tipo de atacante, mais completo do que o antigo camisa nove. Ele é forte o suficiente para ganhar bolas dos zagueiros, mas também móvel para sair da área e tabelar com quem chega de surpresa. Esse hibridismo é mais uma arma para enganar os beques na bola parada. Muitas vezes, o nove faz o chamado pivô – quando fica de costas, prende a marcação e abre uma lacuna para quem aparece. Tático e goleador, a Copa mostrou que o camisa nove ainda está vivo, mas mais completo.
O novo centroavante foi fundamental na eliminação do Brasil, nas quartas de final. Ninguém imaginaria que Lukaku, no alto de seu 1,9metro de altura, começaria o jogo como um ponta rápido e driblador. A movimentação provocou uma pane na defesa brasileira, que viu Fernandinho fazer um gol contra logo na primeira etapa. Se você rever o lance, verá que não foi mero acaso. O zagueiro Kompany corre para tampar a visão de Jesus e Fernandinho, os dois jogadores no chamado primeiro pau na área. No outro gol, o Brasil bate um escanteio e quem ganha a bola é Lukaku, que faz festa nos volantes brasileiros e entrega para De Bruyne fazer um golaço. Duelo que funciona como pastiche da Copa do Mundo: decidido nos mínimos detalhes e na estratégia.
Leia mais: https://epoca.globo.com/meia-cancha/a-copa-do-mundo-da-bola-parada-22895394#ixzz5Ldz9g3Qw
stest
0 comments:
Postar um comentário