O Brasil do 8 ou 80 se adapta à escassez de espaços na Copa
Brasil sofre no primeiro tempo e precisa adotar estratégia mais europeia no segundo. Os gols vieram no sofrimento. A chave para repensar.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2018/r/1/ag6nv1RIeQCKJ8tf5wjg/636652795426119367.jpg)
EFE/Juan Herrero
Por Leonardo Miranda
Acompanhe a cobertura completa da Copa do Mundo no Twitter @leoffmiranda e no Facebook do Painel Tático
Não se configura como novidade o sofrimento que o Brasil teve para vencer a Costa Rica por 2 a 0. Todas as favoritas estão sofrendo numa copa permeada por pouquíssimos espaços para jogar, uma tensão mental impressionante e muitos erros de conclusão. Foram muitos hoje: de 22 chutes, o Brasil precisou dos últimos 5 minutos de jogo para concluir dois e construir o resultado. Resultado esse que não esconde um desempenho irregular e inconstante. A seleção teve dois tempos distintos. Um muito bom, um muito ruim. Uma inconstância que tem origem apenas dentro de campo, no jogo, e também nos meandros emocionais que o cercam.
O Brasil do primeiro tempo foi o Brasil do 8. Não conseguiu criar chances de perigo e mostrou um futebol muito lento e longe da área. A Costa Rica 1usou o expediente da linha de cinco, tão comentada por Tite. A ideia era travar a área com 5 jogadores e colocar mais 4, além do atacante, na tarefa de pressionar o meio-campo. O que se viu foi um time que passou quase o tempo inteiro no campo de defesa. No tatiquês, o nome disso é bloco baixo - quando um time não avança a marcação e chama o adversário para jogar lá.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2018/P/1/qbEpqxTlqH9iLedK9gfw/brasil-1.jpg)
Brasil no ataque do primeiro tempo (Foto: Leonardo Miranda)
Futebol é feito de contexto. Um jogo de ações e intenções do seu rival que te provocam um efeito. Ação e reação. Ao chamar o Brasil para seu campo, a Costa Rica brecou a chamada "saída sustentada", ideia cunhada por Tite e que prega a saída de bola de forma segura, com 4 jogadores atrás da linha da bola, e 6 deles infiltrando em alta velocidade. Uma das intenções dessa saída é concentrar jogadores em seu campo e "chamá-los" para pressionar o Brasil, uma tentativa de abrir espaços atrás.
Foi tudo que a Costa Rica não fez. Não caiu no recado brasileiro. Baixou o bloco sem vergonha alguma de defender. O pior primeiro tempo da era Tite mostrou uma equipe retirada de seu conforto, obrigada a atacar com muita gente. Thiago Silva subia muitas vezes, mas as triangulações pela esquerda simplesmente não funcionavam. Veja na imagem como Neymar, Coutinho e Marcelo ocupam uma faixa que só os permite tocar a bola em "u", sem invadir a defesa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2018/R/6/CX7GwcSvAnBB0TPtFJbA/lado-esquerdo.jpg)
O ataque do Brasil não funcionou na primeira etapa (Foto: Leonardo Miranda)
Não adianta empilhar jogadores no ataque, ou confiar no brilho individual deles para resolver algo. O contexto do jogo é o que faz um craque brilhar ou não. Como seres humanos, jogadores são feito de contexto, de nuances. O papel do técnico não é movimentar peças num tabuleiro, mas sim moldar comportamentos e entender quais nuances poderão dar ao time um desempenho mais próximo da vitória.
Foi o que Tite fez. Entendeu que o modelo e o treinado da seleção funcionou. Não é que seja bom ou ruim - deixe os juízos de valor de lado. Apenas, naquele contexto - bloco baixo muito profundo, intensidade grande de ações e concentração imensa - não havia como fazer as triangulações pela direita fluírem. Um dos pontos citados por Tite é que a ansiedade do primeiro tempo prejudicou o time, que errava passe. A bola queimava por precisar ser tocada rápido nesse sistema.
O Brasil do segundo tempo foi mais 80. Com uma ideia que vem da tradição holandesa que tem em Pep Guardiola um grande representante. A seleção praticou um ataque posicional muito puro. O que isso significa? Que os jogadores precisam ocupar certos espaços para receber a bola num local definido. A partir desse domínio de bola, eles interagem entre si - trocam passes ou vão para a área receber a bola. Isso resolveu aquele problema de domínio - pois o jogador, ao ficar mais fixo a um determinado espaço, conseguia receber e ter tempo (e espaço) para dominar a bola e depois jogar.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2018/Y/d/ZXVlkASzu1H1e39F2FLQ/segundo-tempo.jpg)
Ataque posicional do Brasil no segundo tempo (Foto: Leonardo Miranda)
Neymar e Douglas Costa, os jogadores com maior capacidade de drible, ficaram abertos. Marcelo e Fagner vinham por dentro, na função que Tite chamou de construção. Junto a eles, Coutinho e Paulinho tocavam e corriam para a área. A ideia era ter dois grandes dribladores "alargando" a linha de cinco da Costa Rica. Se ganhassem a jogada, jogavam a bola para a área. Por isso a importância de continuar com Paulinho e Jesus no jogo, e depois Firmino. A cada cruzamento vindo das pontas, pelo menos 4 brasileiros se apresentavam de frente para o gol. Esperavam a bola no pé para finalizar.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2018/9/4/4zDi6xSZKZfirVx5kfcw/captura-de-tela-2018-06-22-as-10.26.40.png)
Chegada na área do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
Muitas finalizações e também uma partida monstruosa de Thiago Silva, Miranda e Casemiro. Os três eram a segurança defensiva para não tornar um contra-ataque da Costa Rica em algo perigoso. Precisaram ler cada jogada e cobrir muito espaço. E o Brasil amassava. Teve o pênalti não marcado pelo VAR. Concluía e errava. Até Firmino e Jesus sustentarem uma bola na área e Coutinho aparecer livre para fazer o gol, ou Neymar ficar de frente para o gol com a bola na direita. Tudo dentro da ideia de forçar o jogo pelas pontas e preencher a área de Navas, melhor da partida pelas defesas, para concluir.
Nem 8, nem 80. O Brasil não jogou tão mal assim, do mesmo jeito que também não fez um excelente jogo. É o contexto que diz que o time se adaptou a uma Copa do Mundo sem nenhum espaço para jogar.
Acompanhe a cobertura completa da Copa do Mundo no Twitter @leoffmiranda e no Facebook do Painel Tático
https://globoesporte.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2018/06/22/o-brasil-do-8-ou-80-se-adapta-a-escassez-de-espacos-na-copa.ghtml
0 comments:
Postar um comentário