quarta-feira, 20 de junho de 2018

Entre a linha de 6 e a retranca, Irã e Espanha é uma oportunidade para ler o jogo com novos olhos

A defesa do Irã e a atuação da Espanha fornece uma multiplicidade de ideias que ajuda a entender o futebol com os olhos dos conceitos e não apenas das sensações

Entre a linha de 6 e a retranca, Irã e Espanha é uma oportunidade para ler o jogo com novos olhos
Reuters
Por Leonardo Miranda
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É impossível não gostar da Copa do Mundo, até em seu mais chato jogo. Para quem gosta de torcer, o torneio guarda memórias afetivas e lembranças de seleções que encantam e fazem do futebol um lugar mais alegre. Gostamos do futebol ofensivo, que joga para frente. Qualquer coisa que se assemelhe ao que o Irã fez contra a Espanha é vista sob um viés negativo: retranca! Covardia! Criamos dois antagonismos, o de ofensivo e defensivo, para designar os times. Se alguém jogou bem, teve atitude. Se jogou mal, está na balada, é mimado. Perceba: percepções, sensações e sentimentos. todas regidas pelo coração, ou seja, algo único.
Entender a realidade em campo exige ir além. O confronto entre Irã e Espanha nos proporciona uma nova forma de ver o jogo. Saem as explicações baseadas em características pessoais, entram as ideias. As nuances do jogador. As orientações e intenções do técnico. Antes que você se pergunte, nada disso é uma novidade. Era assim também em 1930 ou 1970. A grande revolução é na forma de ler o jogo. Neste sentido, entenda a tática como a ferramenta de interpretação do que um jogador faz e um técnico quer. Não algo que existe sem os jogadores, presa a um esquema tático.
Aliás, o Irã deu uma aula sobre o que é esquema tático. Como passou boa parte do tempo se defendendo, a impressão era de que o time entrara em campo num 6-4-0. Mas veja, na imagem abaixo, que os dois laterais e dois zagueiros estão alinhados, em amarelo. Observe onde a bola está, ainda que o frame não dê o movimento. Você verá que a Espanha ainda está em seu campo, pensando a jogada. Nesse momento do jogo, o Irã se configura com uma linha de quatro na defesa.
Irã em seu esquema, começando com uma linha de quatro (Foto: Leonardo Miranda)
Irã em seu esquema, começando com uma linha de quatro (Foto: Leonardo Miranda
Veja como o esquema se dissolve ao longo da partida. Quando a Espanha estava atacando o Irã, os dois pontas voltavam e ficavam bem alinhados a essa linha de quatro, em amarelo. A grande sacada é entender o porquê desse movimento. É isso que explica o desempenho de um time. Ao entender que a Espanha tinha em seus laterais sempre abertos um perigo, a equipe iraniana resolveu defender sua área com 6, não permitindo aos espanhóis os espaços perto do gol.
Irã com seus pontas junto a defesa (Foto: Leonardo Miranda)
Irã com seus pontas junto a defesa (Foto: Leonardo Miranda)
Isso não é novidade. Nesta Copa do Mundo mesmo, contra o Marrocos, o Irã já ensaiou o mesmo movimento. Brecava o jogo dos laterais abertos com seus pontas voltando e defendendo junto a linha de quatro, como a imagem não deixa mentir. O que aconteceu é que hoje o Irã passou mais tempo se defendendo. Logo, essa ideia ficou mais visível.
Linha de 6 do Irã contra o Marrocos (Foto: Leonardo Miranda)
Linha de 6 do Irã contra o Marrocos (Foto: Leonardo Miranda)
A Copa é transmitida a todos, e por isso, gera a sensação de estarmos olhando uma novidade. Mas lembre-se: a grande novidade é a forma de ler o futebol, não o jogo em si. Se pegarmos algum jogo antigo no YouTube, com certeza iremos achar alguma linha de 6 lá. Quer um exemplo? O Corinthians de 2017. O esquema, falado por Fabio Carille, era o 4-2-3-1 de sempre. Mas veja como os jogadores se moviam. Observe o comportamento, não as posições e funções. Entenda o futebol sob o prisma do comportamento. Jadson e Romero faziam os mesmos que os pontas iranianos: voltavam quando os laterais estavam abertos como aqui, na vitória sobre o Grêmio, no 1x0.
O Corinthians se defendendo como o Irã (Foto: Leonardo Miranda)
O Corinthians se defendendo como o Irã (Foto: Leonardo Miranda)
A Copa do Mundo mexe com nossa visão de futebol. Basta ver como avançamos depois do 7x1. 4 anos depois, o entendimento continua evoluindo. E vamos deixando alguns conceitos, como retranca, para trás. Porque jogar na defesa como prova de covardia não é uma análise de futebol. É de atitude, de caráter, algo que não entra em campo. Afinal, pode-se fazer muitos gols se defendendo. E poucos com a posse de bola, como a Espanha.
É tudo definido por um embate de ideias e conceitos. Entender o que cada jogador faz e não tratá-lo como um simples pebolim, onde o sistema tático é o máximo de explicação que temos, e dar sempre as mesmas desculpas de "atitude" e "raça" é um caminho mais respeitoso e avançado para ver o futebol de outro jeito.
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