domingo, 19 de março de 2017

O futebol está repleto de rituais, clichês, lendas e superstições

Nesta semana, recomeçam as eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia. O Brasil terá uma partida difícil, fora de casa, contra o Uruguai, mesmo sem Suárez, e outra, que não é fácil, no Itaquerão. O Paraguai é, individualmente, modesto, mas costuma dificultar a vitória de qualquer grande seleção.
Provavelmente, Firmino entrará no lugar de Gabriel Jesus. Firmino é um centroavante que gosta de recuar para receber a bola, de driblar e de trocar passes, enquanto Gabriel Jesus se destaca mais pela velocidade com que parte para receber a bola na frente e pela rapidez de raciocínio. Chega sempre primeiro.
Repito, faltam ao Brasil um goleiro excepcional, como Neuer, Buffon, Courtois, De Gea e outros, e um craque no meio-campo, que jogue de uma área à outra, como Modric, Kroos, Vidal, Thiago Alcântara, Pogba e outros.
Em compensação, nenhuma seleção tem um lateral-esquerdo como Marcelo nem tantos meias atacantes agressivos, dribladores, velozes e ótimos no confronto individual, como Neymar, Philippe Coutinho, Willian e Douglas Costa, cortado por contusão. Por isso e por ter, agora, um bom conjunto, o Brasil voltou a ser um dos candidatos ao título mundial.
Uma opção, que pode ser necessária mais à frente, seria atuar com dois volantes (Casemiro e Renato Augusto), uma linha de três meias (Neymar e mais dois) e um centroavante. Outra seria adaptar Philippe Coutinho ou Willian na função de Paulinho. Uma terceira, enquanto Gabriel Jesus estiver fora, seria escalar Douglas Costa ou Philippe Coutinho pela esquerda e Neymar mais centralizado e mais perto do gol.
Os zagueiros e laterais brasileiros estão entre os melhores do mundo. Após o 6 a 1 do Barcelona sobre o PSG, voltaram as críticas a Thiago Silva, não por sua atuação, pois atuou bem e não cometeu nenhum erro, mas por seu comportamento de capitão. Queriam que ele evitasse a postura medrosa do time francês. Essa capacidade de um capitão, de mudar a história de um jogo, é, com raríssimas exceções, uma ilusão, uma lenda, transmitida por gerações.
O capitão é o representante do técnico no gramado e dos jogadores fora de campo. Alguns são ótimos para reivindicar prêmios mais altos por vitórias e títulos. Outra função muito importante é escolher o lado de campo para começar o jogo. Durante a partida, todos os jogadores podem e devem opinar. A liderança não é só do capitão. Muitos líderes técnicos em campo não eram capitães, como Gerson, na Copa de 1970.
O futebol está repleto de clichês, lendas, rituais e superstições, que se tornam muito mais importantes do que são. Um exemplo foi a entrada em campo dos jogadores de mão dadas, durante a Copa de 1994, que, para muitos, foi tão decisiva quanto Romário. Isso tem a mesma importância que dezenas de outros rituais, como o dos discursos emotivos, os gritos e os abraços dos jogadores, no vestiário, antes de o jogo começar.
No futebol, existe uma grande preocupação em procurar uma única causa para tudo. Tragédias, como o 7 a 1 da Copa de 2014 e do recente 6 a 1 na Liga dos Campeões, ocorrem por acertos, erros dos jogadores, das equipes, dos árbitros e também por uma rápida sequência de detalhes inespecíficos, que se somam e se potencializam. A vida é um caos organizado e reprimido.
Emilio Morenatti - 8.mar.2017/Associated Press
Barcelona's Lionel Messi celebrates with Neymar their victory during the Champion League round of 16, second leg soccer match against Paris Saint Germain at the Camp Nou stadium in Barcelona, Spain, Wednesday March 8, 2017. (AP Photo/Emilio Morenatti) ORG XMIT: EM103
Neymar e Messi comemoram gol do Barcelona sobre o PSG pela Liga dos Campeões.

tostão
Médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa de 1970. Afastou-se dos campos devido a um problema de descolamento da retina. Escreve às quartas-feiras
e aos domingos.

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