BRASIL, UM PAÍS CADAVÉRICO
Aninha Franco* em Trilhas**Minha perplexidade com os istas de “esquerda” que ocuparam o Planalto central do país e cercanias nos últimos anos, sob o guarda-chuva do lulopetismo, é imensa. Entre seus comportamentos no poder e seus discursos há abismos. Dilma precisava de 213 funcionários no Palácio para serviços de garçons, copeiros e auxiliares de serviços gerais? Temer demitiu 61, gerará uma economia de R$ 4,9 milhões ao ano, e ainda restam 152. Eduardo Cunha que atrai bilhões a cada vez que seu nome é pronunciado, ele, a mulher e a filha, ganharam e gastaram zilhões em futilidades alinhados ao “esquerdismo” lulopetista que se agora o desdenha é porque não o pode mais comprar. E nas notícias semanais que seguem a Lava Jato, a Bahia apareceu com as corrupções provincianas da Petrobras de Rosemberg Pinto e Darcles, e as corrupções estratosféricas do marketing político, as duas ligadas ao lulopetismo.
Ouvir os depoimentos de João Santana e Mônica Moura foi péssimo. Escutei João nalgum momento da primeira gestão Jaques Wagner no Café Machiavelli, vizinho da Livraria Tom do Saber, aquele lugar lindo, claro, aberto que foi se fechando, e que eu acompanhei até o Restaurante Ocho. A voz no Café era de um vencedor aparentemente preocupado com a vida cultural da cidade, que estava em guerra. Parecia que ninguém sabia, nem o governador, nem o seu secretariado, o que queriam dela, e nós, artistas, tínhamos a impressão que eles queriam acabar com a criação de então, para montar um perfil alinhado com o petismo. Conseguiram a desconstrução. A voz de Mônica noutro momento era de uma empresária realizada, na porta do Tom do Saber, onde eu passava exercitando o corpo, cumprimentando Cintia, os funcionários, olhando as novidades editoriais.
As vozes dos presos projetam corpos que fizeram uma quantidade de dinheiro impossível de gastar, ignorando o país, como se não pertencessem a ele quando estiveram no Poder. O Tio Patinhas de Disney só sentia prazer na sua piscina de dinheiro. E é essa a imagem que se tem de Santana, agora, ou de José Dirceu quando se lê seu discurso no livro Collor Presidente, de Marco Antonio Villa, comandando a CPI contra a corrupção de Collor e PC Farias.
Como é que humanos tão inteligentes foram abatidos pela usura, defeito tão primário? José Dirceu eu não sei, mas João Santana, com certeza, leu o Canto da Usura de Pound, leu que “com usura nenhum homem tem casa de boa pedra, blocos lisos e certos que o desenho possa cobrir; (…); com usura (…) nenhum quadro é feito para durar e viver conosco, mas para vender, vender depressa; com usura, pecado contra a natureza, teu pão é mais e mais feito de panos podres teu pão é um papel seco, sem trigo do monte, sem farinha pura. Com usura (…) ninguém acha lugar para sua casa. Quem lavra a pedra é afastado da pedra. O tecelão é afastado do tear. COM USURA a lã não chega ao mercado, a ovelha não dá lucro com a usura, A usura é uma praga, (…). A usura enferruja (…) a arte e o artesão (…). A usura é um câncer no azul; (…) A usura mata a criança no ventre (…) trouxe paralisia ao leito, jaz entre noivo e noiva (…). (…) cadáveres no banquete a comando da usura”.
A Usura fez do Brasil um país cadavérico.
*Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, advogada e ativista cultural.
**Publicado em 23.07 no Correio da Bahia
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