ESPECIAL: o que a Eurocopa nos mostra de evolução tática até agora?
por Leonardo Miranda
Apenas 2 jogos dos mais de 20 disputados na Eurocopa até agora terminaram com um placar de mais de 2 gols de diferença. No 1º tempo de Itália e Suécia, 10 dos 19 jogos até então tinham ido para o vestiário com o placar de 0x0.
Esses fatos nos levam a reflexões sobre o futebol praticado hoje. Estamos falando da Eurocopa, a competição de futebol mais importante depois da Copa do Mundo. Se você pensar que boa parte dos jogadores europeus estão ali, e que brasileiros, uruguaios, argentinos e colombianos jogam sob o mesmo modelo em seus clubes, a Eurocopa dita tendências e mostra o que há de mais avançado hoje.
O que chama a atenção é a organização das equipes com foco no preenchimento de espaços. Não faz mais sentido falar em “voltar pra defesa”, já que a compactação defensiva é tão grande que exige a participação atenta de todos os 11. Defender virou um exercício de diminuir o campo: veja como a Suécia se posta sem a bola, ocupando um espaço de 25m x 34m em Toulouse. Sabe o que isso significa? Que a Suécia ocupa um espaço de aproximadamente 15% DO CAMPO!
Com pouco espaço pra jogar, não faz mais sentido pensar na ação do jogador isolado do resto. O que um camisa 10 faria aí, sem ninguém à sua frente para receber? Nada. O que um volante de chegada faria, sem ter espaço pra de fato chegar? Também nada. As ações são coletivas, pensadas e executadas pelos 11.
Com pouco espaço pra jogar, não faz mais sentido pensar na ação do jogador isolado do resto. O que um camisa 10 faria aí, sem ninguém à sua frente para receber? Nada. O que um volante de chegada faria, sem ter espaço pra de fato chegar? Também nada. As ações são coletivas, pensadas e executadas pelos 11.
Se não existem mais funções definidas, o campo está muito curto e não há espaços, de quem vem a qualidade dos passes no início das jogadas? Isso mesmo: os zagueiros. Como a marcação começa nos volantes, a zaga fica mais tempo com a bola...por isso precisa ter qualidade técnica E opções à frente. Retornando à Itália, veja quem está livre e tem tempo pra cadenciar, pensar...os 3 zagueiros!
Na imagem acima, você nem consegue ver os laterais. Onde estão? A Eurocopa vem mostrando um papel muito peculiar: os laterais não participam mais da armação do jogo (como a gente concebe aqui). Eles são os principais responsáveis por "reabrir" o campo fazendo uma coisa simples: ficam sempre abertos e nunca saem do lado. É o que se chama de amplitude: dar largura para que haja jogadores posicionados nas 2 linhas de fundo.
Na imagem acima, você nem consegue ver os laterais. Onde estão? A Eurocopa vem mostrando um papel muito peculiar: os laterais não participam mais da armação do jogo (como a gente concebe aqui). Eles são os principais responsáveis por "reabrir" o campo fazendo uma coisa simples: ficam sempre abertos e nunca saem do lado. É o que se chama de amplitude: dar largura para que haja jogadores posicionados nas 2 linhas de fundo.
O zagueiro virou meia, o lateral virou ponta..e os atacantes? Pense junto: se o jogo é pensado de trás pelos zagueiros e os laterais ocupam os lados, o que um atacante faz? Só sobrou uma parte do campo: por dentro, perto do círculo central. É o que eles fazem: se movimentam o tempo todo por aquela região, sempre buscando a bola, tocando no lateral, retornando a bola...
Com os mais rápidos por dentro, a troca de passes precisa ser rápida e letal. Se alguém infiltra e recebe, sai na cara do gol. E é ainda mais importante não perder o gol, já que as chances estão cada vez mais raras. A Inglaterra virou contra o País de Gales assim: tocou rápido a bola e alguém infiltrou livre, deixando a defesa "na saudade".
Viu como tudo está relacionado? A compactação não surgiu do nada, ela foi fruto de anos de estudo. Os técnicos passaram a ver que, quanto menos o campo, mais protegido fica o gol. Outros técnicos passaram a quebrar a cabeça pra saber como furar isso: aí vem a amplitude, os atacantes por dentro, a intensidade e mais uma série de conceitos no futebol atual.
Com os mais rápidos por dentro, a troca de passes precisa ser rápida e letal. Se alguém infiltra e recebe, sai na cara do gol. E é ainda mais importante não perder o gol, já que as chances estão cada vez mais raras. A Inglaterra virou contra o País de Gales assim: tocou rápido a bola e alguém infiltrou livre, deixando a defesa "na saudade".
Viu como tudo está relacionado? A compactação não surgiu do nada, ela foi fruto de anos de estudo. Os técnicos passaram a ver que, quanto menos o campo, mais protegido fica o gol. Outros técnicos passaram a quebrar a cabeça pra saber como furar isso: aí vem a amplitude, os atacantes por dentro, a intensidade e mais uma série de conceitos no futebol atual.
A Eurocopa parece até futsal. Ou basquete. A evolução do jogo foi pegando influências de outros países, de técnicos inovadores..o que acontece agora é fruto de uma evolução que vem desde 1974, com a Holanda, e pegou muito da marcação por zona de Nereo Rocco, da ultracompactação de Arrigo Sacchi em 1990, do "jogo de posição" de Louis Van Gaal em 1995, do controle de jogo da Espanha e de Mourinho x Guardiola. Não há como ir contra algo que acontece há tanto tempo.
Ao mesmo tempo, o número cada vez menor de gols deixou o futebol chato para muita gente. Sem espaços, lances bonitos, cruzamentos de trivela e dribles mirabolantes já não existem - afinal, o grande intuito do drible é deixar o marcador pra trás. Se a marcação é por zona e não mais individual, dar um drible não surte mais efeito. A qualidade técnica, hoje, ainda é decisiva. Nenhum lance daria certo sem ela. Mas inteligência, tática e coletivo ganharam importância enorme.
Aqui no Brasil, estamos em crise. Olhe para a Seleção e veja se o futebol que ela joga tem como competir com esse mostrado aí em cima. Olhe para seu time do coração e veja se ele tem chances com o futebol que joga atualmente....é duro, mas a resposta é não para tudo.
Isso não significa que tudo que vem da Europa é melhor. Nem que precisamos imitar e pegar correndo o que eles fazem de lá. Não é isso. Mas as mudanças começam em aceitar que o tipo de futebol praticado aqui não faz mais efeito, que os clubes estão endividados, que a base já não revela como antes e que nossa forma de olhar não está atualizada.
Aceitar é o primeiro passo para mudar. 1958, 1962 e 1970 é passado. Não ganhamos a Copa de 1982 porque aquele time tinha problemas TÁTICOS. Aquele futebol não volta e NUNCA serviu de inspiração pra Guardiola. É passado - lindo, mas passado.
O presente é mais feio, mais duro. O "joga bonito" que a gente tanto sente falta não vai voltar se torcermos o nariz para o que acontece lá fora. Precisamos aceitar que temos que nos ajudar, acabar com o saudosismo e ir de peito cheio para o novo. Dar chance para os mais jovens, com ideias mais frescas. Mudar o futebol dos clubes pra depois mudar o da Seleção. Aí depois a gente quebra a cabeça pra encaixar a nossa essência no futebol atual...não o inverso.
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