Nelson observou Brasil que “jamais foi um time”, mas recusou imitação
Marcos GuedesSão Paulo (SP)
Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Nelson não embarcou, no entanto, no caminho apontado pelo futebol-força dos campeões ingleses, com sua “saúde de vaca premiada”, nem duvidou do talento verde-amarelo. “Seria injusto, monstruosamente injusto. Porque o jogador brasileiro continua o melhor do mundo Nada descreve e nada se compara à graça, ao sortilégio, à flama do nosso craque.”
É impossível imaginar o que pensaria o escritor hoje, mas é repetido o cenário de 1966, com a Alemanha ocupando o lugar da Inglaterra como modelo. Não se trata, porém, de um modelo propriamente estranho aos brasileiros, pois os germânicos conquistaram o tetra tocando a bola à brasileira, enquanto os pentacampeões apostaram em chutões contra todos os seus adversários.
Sejam quais forem os conceitos táticos, a sensação após os 7 a 1 é de inferioridade. Nelson Rodrigues remou contra esse sentimento em 1966, rebatendo os que queriam “fazer do futebol brasileiro uma miserável colônia do futebol inglês”. Quatro anos mais tarde, durante a campanha do tricampeonato, zombou dos que haviam apontado o fim da linha para o futebol brasileiro.
“O que é o ‘entendido’? Veremos se posso caracterizá-lo. É o cronista que esteve, em 66, na Inglaterra, e voltou com a seguinte descoberta: – o futebol europeu em geral e o inglês em particular eram muito melhores do que o nosso. Estávamos atrasados de quarenta anos para mais”, escreveu, antes de concluir: “O ‘entendido’ só não se torna abominável porque o ridículo o salva”.
AFP
O conceito de ridículo não é algo com que tem lidado bem os brasileiros nos últimos dias. Os próximos anos mostrarão se de fato há um atraso em relação aos alemães proporcional à goleada no Mineirão. Enquanto isso, o povo que fez a Copa das Copas, encantando especialmente os campeões da Alemanha, lambe feridas que demorarão a cicatrizar.
“As grandes humilhações nacionais são temas permanentes e obsessivos. Assim como não esquecemos Canudos, nem esquecemos 50, assim continuamos atrelados à vergonha de 66”, afirmou Nelson, em pensamento que se aplica ao fracasso de 2014. “Daqui a duzentos anos, a derrota ainda será uma ferida a chorar sangue, e repito: – sangue vivo e perene.”


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