quinta-feira, 13 de junho de 2013

Narrador Esportivo- uma profissão em risco de extinção

Nilton Nogueira

Antonio Pitta

Futebol e  rádio. Essas duas paixões do brasileiro se misturam há décadas e existe uma figura fundamental nesta ligação: o narrador esportivo. Esse profissional que leva até o público ouvinte toda a emoção de uma partida de futebol, está (pelo menos na Bahia) entrando em processo de extinção. Sim, “extinção”.
Os narradores esportivos que fizeram nome no rádio da Bahia, estão aposentados ou em fase da aposentadoria e novos talentos não estão aparecendo para a substituição natural. Mas qual a causa do desinteresse da nova geração de radialista nesta arte de transmitir lance à lance as alegrias do futebol? OFolha Salvador conversou com um dos mais experientes e famosos narradores esportivos da Bahia, Nilton Nogueira, para saber a opinião de quem está na profissão há 53 anos.
Para Nogueira, o rádio-esportivo perdeu muito espaço a partir do momento em os jogos passaram a ser transmitidos pela TV, entretanto, provavelmente, o grande vilão do que se pode chamar de decadência do rádio-esportivo seja o arrendamento de horário em emissoras. “Antes, o rádio-esportivo da Bahia era muito bom, emissoras como Rádio SociedadeRádio Excelsior da BahiaRádio Cultura da Bahia e Rádio Cruzeiro mantinham equipes esportivas  competitivas e o radialista era valorizado. Era comum a disputa dos veículos pelo profissional que se destacava, e este, tinha não só o reconhecimento como radialista, mas também vantagens financeiras na troca de uma emissora para a outra” afirma Nogueira.
O narrador esportivo comenta que a figura do arrendatário de horário é nociva à profissão porque praticamente tornou o oficio em algo amador. Segundo Nogueira, a partir desse momento, os testes vocacionais comuns em emissoras foram praticamente extintos. Ou seja, desde que o candidato tenha vontade de exercer a profissão, esteja disposto a trabalhar gratuitamente e disponha de patrocínio está credenciado a atuar no rádio-esportivo. “ Você quer fazer rádio, quer ser um repórter esportivo agora? Basta chegar a um arrendatário e apresentar uma verba de patrocínio de R$1.500 reais e ele lhe entrega um microfone na hora. Avacalharam o rádio-esportivo da Bahia” denuncia Nogueira.
O radialista observa que essa prática, até onde sabe, é muito comum apenas na Bahia. Em outras praças existe a figura do arrendatário, mas o que prevalece é o talento do profissional. Nogueira dá como exemplo o repórter Wilton Matos. “Wilton, que hoje trabalha aqui na Rádio Sociedade e na Itapoan FM, antes fazia parte do quadro da Rádio Excelsior e não foi aproveitado de forma alguma, segundo o próprio Wilton, porque não tinha patrocínio. Enfim, mesmo com qualidade técnica, o rapaz não teve oportunidade na Excelsior e hoje atua em duas emissoras” revela Nogueira.
A qualificação profissional seria a solução?
Para Nilton Nogueira, embora exista curso superior de rádio e TV, o narrador esportivo já nasce com o dom um curso como esse  pode formar tecnicamente, mas, não substitui o talento que é nato. O radialista não acredita na possibilidade de ver um professor ensinando como narrar o passo a passo de um lance ou a emoção de um gol.
Folha Salvador conversou também com a coordenadora de Cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC-BA), Ana Aparecida das Neves que falou das dificuldades encontradas para a realização de cursos de audiovisual na Bahia. “Existe a demanda para que o SENAC possa formar profissionais da área, como ocorre em São Paulo, por exemplo, porém, a nossa grande dificuldade está no material humano para ministrar as aulas. Há cerca de dois anos, em parceria com o Sindicato dos Radialistas, tentamos iniciar um módulo voltado para a comunicação de rádio comunitária, mas, infelizmente,  não tivemos êxito” lamenta a coordenadora.
Aparecida observa que trazer professores de São Paulo para ministrar as aulas seria uma solução. Por outro lado, o deslocamento desses profissionais teria um custo muito alto. Desse modo, o preço final do curso ficaria inviável ao grande público.
Uma cadeira vazia
Dos narradores esportivos em atividade em Salvador e região metropolitana, apenas os radialistas Paulo Silva , Jota Carlos, Reinan Peralva e Evander Jessan podem ser considerados como renovação da profissão. A falta de investimento das emissoras de rádio na formação e contratação de equipes esportivas, a escassez de profissionais que possam ministrar aulas em disciplinas específicas nos cursos técnicos, pode tornar uma realidade o desaparecimento desta profissão que faz parte do hábito do brasileiro de mesmo assistindo a partida de futebol no estádio, não dispensa a companhia do radinho de pilha.

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