Para Parreira, seleção tem que chegar à final para garantir sucesso da Copa

Rodrigo Mattos
Do UOL, em São Paulo
Do UOL, em São Paulo
Carlos Alberto Parreira diz que seleção tem que dar um jeito de chegar à final por sucesso da Copa
Ex-técnico da seleção brasileira nas Copas de 1994 e 2006, Carlos Alberto Parreira afirma que o sucesso da Copa do Mundo de 2014 depende da presença do Brasil na final na competição. Ao UOL Esporte, ele admite ser a favor de uma visão pragmática para a seleção, pois acredita que o Brasil tem tradição de montar o time da Copa em apenas um ano e ainda assim se sair bem. Mas admite que a Fifa, hoje, não vê o futebol brasileiro num bom momento.
Em relação à organização da Copa, Parreira vê poucos CTs disponíveis para as seleções estrangeiras, o que o leva a concluir que essa área é um gargalo para a competição. Ele é consultor remunerado pelo Estado de Minas Gerais para projetos da Copa.
UOL Esporte - O senhor tem visto uma preocupação no exterior em relação ao desempenho da seleção na Copa?
Carlos Alberto Parreira - O futebol brasileiro é surpreendente. Em situação adversas, ele é igual ao fênix e ressurge das cinzas. Em 58 não era favorito. Em 70, saiu vaiado. Em 94, saiu desacreditado. E ganhou Copas do Mundo. Em 2002, teve talvez a pior campanha e foi lá e ganhou o jogo. Isso não serve de parâmetro. Hoje, a seleção está em fase de transição, precisando de uma grande atuação, de grandes jogos. Importante é crescer perto da Copa. Temos um time jovem, não temos experiência de outras equipes. A gente reluta muito em reconhecer, mas Lucas é bom jogador, Neymar, fora de série, Thiago Alves, Daniel Alves.
UOL Esporte - Essa é sua opinião porque conhece o futebol brasileiro. Mas o que o senhor ouve no exterior?
Parreira - Eles não ousam dizer que o Brasil não vai ganhar a Copa. Porque é muito surpreendente. Chega aqui a gente cresce. O Neymar faz lá o que faz no jogo e decide. Conversei com muita gente da Fifa. Evidente que as pessoas não estão preocupadas, mas reconhecem que o Brasil não vive um bom momento, que não está à altura de outras seleções que ganharam Copa. Mas todo mundo, por outro lado, tem um pé atrás e outro na frente. Sabem que o Brasil é surpreendente.
UOL Esporte - Qual o efeito que o desempenho da seleção terá no sucesso e na organização do Mundial?
Parreira - O importante para a Fifa é que o Brasil fique até os estágios finais. Para nós, que seja campeão.
UOL Esporte - Mas se for pelo menos até os estágios finais já não prejudica a competição?
Parreira - Não, para nós, é importante que vá à final. O Brasil tem que chegar à final. Não pode pensar diferente. O sucesso da competição, - a gente sabe como o brasileiro é-, imagine o que vai ser do Brasil sair nas quartas-de-final, em uma semifinal? Para mim, é impensável. Tem que chegar à final de qualquer jeito. Tem que dar um jeito. Tem que pensar dessa maneira, positivo. E temos que ganhar.
UOL Esporte - É preciso pragmatismo para isso?
Parreira - Precisa. Tem que ser pragmático, prático. Tem que fazer o trivial. Não inventar a roda. Motivar os jogadores, mostrar que temos valor. E ver que dá para ganhar.
UOL Esporte - Não dá para montar um time como da Espanha?
Parreira - O time da Espanha está junto há não sei quantos anos. É o time do Barcelona sem Messi. Em 2002, a gente montou o time na Copa. Disputamos eliminatórias sem o Ronaldo e Rivaldo e depois entraram. Um ano depois o time era diferente. Em 1994, o time que jogou com o Uruguai [nas eliminatórias] foi o que disputou a final. Só não jogou o Ricardo Gomes que se machucou. Dos 11, dez jogaram. Foi coisa rara, tinha time definido um ano antes. Em 2002, não. Em 1958, mudou muito, cinco. Não vejo como tão importante ter o time definido hoje. Depois da Copa das Confederações, tem que fechar um time.
UOL Esporte - Do seu trabalho em Minas Gerais [como consultor do governo], o que você viu na organização da Copa?
Parreira - A gente tem um gargalo, em Minas Gerais não tem [o problema]. Mas, de modo geral, há gargalo de CTs (centros de treinamento). Minas tem bons CTs, São Paulo tem bons CTs, Curitiba tem bons CTs. O Rio de Janeiro, não. Outras cidades não têm. CTs têm que dar uma incrementada. Cada sede deveria ter três ou quatro centros de treinamento bons. E outro gargalo são os hotéis. Em Minas, o governo faz trabalho excepcional, aeroporto, Mineirão e estrada, mas o que está pegando são os hotéis. Me falaram em 40 projetos e 16 construídos. Vão ficar prontos quatro para Copa. O cara [de seleção] quando chega quer ver tudo pronto. Os locais têm que ter o poder de sedução. Mulher quando acorda é muito feia. Fui escolher CTs seis vezes como treinador. Você tem que gostar do gramado, da trave. Isso tem que ser enfrentado. E estamos em um período crítico. Se acelerar até a Copa dá tempo. No aeroporto do Rio, não encontraram a forma de renovar o aeroporto. Só que fomos indicados para a Copa há sete anos atrás. Faltando um ano e meio estamos discutindo o aeroporto. Chega um momento que não dá tempo. Tem que torcer para que as pessoas acordem.
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