RETROSPECTIVA 2018: o refinamento das defesas, o pivô e o poder das transições no jogo atual
O ano foi marcado pela dificuldade das grandes seleções na Copa do Mundo, a intensidade do Liverpool e o uso de jogadas de pivô como Palmeiras e Atlético de Madrid.
Por Leonardo Miranda
28/12/2018 03h29
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FONTE: Infoesporte
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O escritor George Orwell disse que a história é escrita pelos vencedores. É natural a narrativa ser dos protagonistas, como é da França campeã da Copa do Mundo, do Real Madrid que dominou o mundo pela terceira vez consecutiva, do Palmeiras campeão numa reação fantástica ou até do constrangimento de Boca e River na Libertadores. Mas eles não são os únicos a entrar para a eternidade. Assim como a sociedade, o futebol é um grande vai-e-vém de ideias. Ciclos que se repetem, tendências que renascem, rupturas, progressos e avanços. Um constante processo evolutivo que não se resume apenas ao que os vencedores dizem.
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Se houve uma escrita hegemônica em 2018, essa foi a defesa. A lógica é simples: proteger a própria área com muitos jogadores próximo ao gol, no que se chama de bloco baixo, é a forma mais eficaz de não levar gols. Do City de Guardiola ao Ceará de Lisca, defender brecou talentos e fez desaperecer o desnível técnico entre times e seleções. Nunca os grandes sofreram tanto na Copa ou times como Bayern, Real e PSG precisaram de jogadas individuais na Liga dos Campeões. O Irã de Carlos Queiróz chocou o mundo com o calor em Portugal e Espanha: um 4-1-4-1 que se desmancha para fechar o "funil": linha de 4 bem próxima, os pontas junto aos alas, matando a chamada amplitude, e 4 jogadores no meio alternando pressão no portador da bola.
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Irã na Copa do Mundo — FOTO - Leonardo Miranda
Há vários motivos para explicar essa hegemonia. Ao ampliar o acesso ao conhecimento, a internet permitiu que seleções e times menores melhorassem o preparo tático e técnico. O Whatsapp virou instrumento que o jogador tem para entender como o adversário joga e como explorar suas fraquezas. O preparo físico permite que o jogador resista a ações de alta intensidade por mais tempo. Cenário ideal para o futebol beber de outras fontes e defender como o handebol: fechando a área, usando pivô e importando a ideia de superioridade numérica, quando jogadores navegam para o lado da bola para pegar o oponente sempre com mais gente, tirando-lhe o espaço da jogada. Sinta a brutal semelhança desenhada na imagem abaixo:
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Semelhança entre basquete e handebol — Foto Leonardo Miranda
Não apenas na Copa. O sucesso de Atlético de Madrid na Liga da Europa e os campeonatos que o Corinthians de Carille e o Botafogo de Alberto Valentim no primeiro semestre, com defesas bem próximas desse conceito, é uma prova: defender bem é muito eficaz. Não é uma questão do futebol se tornar mais ou menos defensivo ou de ter ou não a bola. Também não é a morte do "modelo Barcelona" ou da posse de bola. É a evolução batendo à porta, o que já aconteceu com o basquete e o futsal.
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Atlético de Madrid na Liga Europa: impossível de quebrar — Foto: Leonardo Miranda
A grande questão que fica é: como buscar alternativas? Como fazer gols num cenário onde adversários parecem cada vez mais prontos para combatê-los? O que 2018 mostra é que há pelo menos três tendências táticas que respondem essa pergunta:
- Diminuir o papel do meio-campo e do passe na construção das jogadas por ligações diretas e pivôs como ferramenta de quebrar defesas, como a França de Deschamps, o Palmeiras de Felipão e o Bayern de Heynckes fizeram;
- Buscar um jogo posicionado no meio para que a bola chegue em pontas fixos e abertos e insistir nas jogadas de linha de fundo, como o Brasil de Tite, o Flamengo de Barbieri e o City de Guardiola fizeram;
- Apostar num modelo reativo: fecha a defesa, força física no meio para pressionar muito a bola e usar o momento da transição como ataque, como o Liverpool de Klopp, o Cruzeiro de Mano Menezes e Tottenham de Pochettino fizeram
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- Você pode espernear, detestar ou achar muito feio. Mas jogar a bola pro centroavante dar a casquinha nunca foi tão eficiente. O pivô é o jogador que se coloca de costas e retém a bola à espera dos companheiros. Esse movimento ganhou força no ano porque quebra a lógica das defesas de handebol e coloca a bola numa disputa individual entre centroavante e zagueiro. Como as defesas atuam pela lógica da superioridade, um pivô forte atrai dois ou mais zagueiros para a marcação do centroavante, que ao se deslocar, abre espaço para a chegada dos meias. Diego Costa, Giroud, Ábila, Deyverson, Harry Kane, Jael, Pratto....foram muitos os pivôs em destaque no ano.Um exemplo prático vem de Giroud, cuja importância tática foi fundamental à França. No golaço de Pogba contra a Austrália, ele recebe a bola de Mbappé de costas, e apenas com o corpo, atrai o zagueiro, que se desloca e abre o espaço pontilhado em vermelho. Tudo o que Pogba precisava para explodir naquela região e finalizar a gol. Se há algo que 2018 deixa, é o mito de que camisa 9 vive de gols. Ele pode ser centroavante tático, fazer função e ajudar o time. Porque o futebol sempre foi e sempre será um esporte coletivo.
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- Pivô de Giroud no gol de Pogba contra a Austrália — Foto: Leonardo Miranda
- Outra prova da importância dos pivôs foi a bola parada: coqueluche da Copa do Mundo, muitos dos gols foram feitos com o auxílio de um centroavante puxando a zaga ou dando a assistência. Dos 179 gols na Copa do Mundo, 42% foram oriundos de lances com a bola parada - recorde na história do futebol. Mais um número que consolida a dificuldade de criar espaços por meios mais tradicionais e estéticos como o passe, seja ele curto como o da Espanha em 2010 ou do Brasil de 1994, ou em projeção e lançamentos, como os do Brasil em 1982 e 1970. Não há talento que jogue sem espaço.
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- Uma outra forma de lidar com as defesas fechadas foi o uso de um jogo baseado em pontas e cruzamentos na área. Algo que Pep Guardiola entendeu bem no Manchester City, irresistível campeão inglês no primeiro semestre. O 4-3-3 se desmanchava em um 3-2-5 no ataque. Quase um antigo WM, com dois pontas muito "puros", Sané e Sterling. Eles ficavam ficavam fixos prontos para receber a bola, driblar e fazer um passe rasteiro para a área. O jogo de extremas também foi importante no Bayern de Jupp Heynckes, no Monaco de Leonardo Jardim e no Napoli de Sarri, equipes que se destacaram pela organização para levar a bola o mais rápido possível à área.
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- City de Guardiola com os pontas bem abertos — Foto: Leonardo Miranda
- Nos últimos anos, se debate se a escola holandesa - para simplificar, a tal da posse de bola - ainda é válida. O sucesso do Barcelona de Guardiola foi mais que tático: foi estético e filosófico. Por isso, tudo o que vem do Barça ou dele segue sendo motivo de polêmica (todas vazias). Ter a "posse de bola" continua sendo eficaz. O que muda é a velocidade e a forma com a qual a bola é finalizada. Tite usou conceitos assim, ao usar mão dessa ideia de pontas fixos no segundo tempo do Brasil contra a Costa Rica. Barbieri e Dorival implantaram ideia parecida no Flamengo vice-campeão brasileiro, mais adaptado ao contexto de liberdade posicional no Brasil.
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- Se o adversário se fecha com mais qualidade, faltam espaços para atacar. Em qual momento essa lógica se quebra? Quando você está sendo atacado! 2018 foi um ano de contra-ataques furiosos e inteligentes. A lógica do Liverpool, assim como do Tottenham, da Roma, River Plate e Boca Juniors era marcar para atacar: chama o adversário e faz ele preencher a área rival com muitos jogadores. Depois, pressiona intensamente, e ao recuperar a bola, sai com velocidade para aproveitar os espaços deixados ali. De novo, a influência de outro esporte. Dessa vez do "run and gun" do Phoenix Suns de Mike D’Antoni e Steve Nash, entre 2004 e 2007. Um time de contra-ataque rápido e muitos jogadores passando da linha da bola para fazer a cesta. Evolução que ganhou títulos no Golden State Warriorsdo fantástico Stephen Curry, um criador de espaços tal como Messi: move a bola com constância, triangula e ataca rápido.
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- Pressão do Liverpool na Roma — Foto: Leonardo Miranda
- O Liverpool usou os espaços de forma inteligente e com absurda intensidade. Talvez a equipe mais moderna do ano, mostrou também que aquele papo de compactação e defender com 11 não é um dogma. Muitas vezes, Salah e Firmino não participavam de ações defensivas para receber a bola mais à frente nos momentos de contra-ataque. Assim corriam menos e conseguiam se colocar na frente dos zagueiros. Veja como é curiosa a evolução do futebol: se há 4 anos pipocavam aquelas imagens da Alemanha toda compacta, defendendo com 11, hoje a moda é defender com 7. A própria Alemanha caiu na teia do México, que fez a mesma coisa que o Liverpool na Copa.
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- Liverpool defendendo com 8 contra o City — Foto: Leonardo Miranda
- Outro exemplo prático está na doída derrota do Brasil na Copa do Mundo. Quem imaginaria a Bélgica com Fellaini de titular e um 4-3-3 com De Bruyne de falso-nove? A lógica era a mesma: fechar o meio e deixar Lukaku e Hazard nas costas dos laterais brasileiros. No escanteio, o balanço defensivo com o grandalhão centroavante longe da área, algo incomum a todos. Numa só jogada, todas as tendências de 2018: pivô do centroavante, Fernandinho no chão, contra-ataque rápido com inversão de lados e gol de De Bruyne. Tudo decidido nos mínimos detalhes.
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- Escanteio do Brasil contra a Bélgica — Foto: Leonardo Miranda
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- Se o futebol se volta para a velocidade e a intensidade e vê uma sobreposição muito grande das defesas ao ataque, com tendências fortes para criar espaços e gols, onde mora o futuro? Qual time é capaz de quebrar essa lógica? A resposta pode estar com Mauricio Pochettino e seu Tottenham que a cada dia encanta mais. Nesse semestre, a base é um 4-3-1-2 com apenas Dier como jogador mais físico no meio. Delle-Ali, Erickssen, Kane e Son (ou Lucas) são quase segundos atacantes, jogando em toques curtos e próximos da área. Os laterais podem apoiar do jeito europeu, abertos, ou do jeito sul-americano, um de cada vez. A equipe sempre avança, busca roubar a bola na frente e sabe ser posicional ou veloz no contra-ataque.Um time que responde o refinamento das defesas usando tabelas rápidas e pivôs, mas também um jogo mais cadenciado e posicional. Quebra a bola na frente ou aposta no passe. Se o funil está cada vez mais fechado, o futuro do futebol parece estar no centro do campo, com cada vez mais jogadores concentrados lá. Algo que a Inglaterra de Southgate fez na Copa, com sucesso.O Tottenham não ganha nada há anos, assim como o Liverpool. A Bélgica parou na França. A Croácia encantou, mas se parece demais com o poderio financeiro do Real Madrid para entregar algo ao jogo. Vencedores ou não, em2018 a história foi escrita por todos. Porque o que há de mais apaixonante no futebol é sua contante e initerrupta evolução, que talha nossas certezas e abre o olho para um futuro que começa agora.2018 PELO BLOG
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