Ver o futebol com mais maturidade e menos ódio: a luz na eliminação do Brasil
O Brasil sempre jogou ódio nos culpados pela derrota. Mas há algo de diferente em 2018: nosso olhar está mais adulto
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REUTERS/Sergio Perez
Por Leonardo Miranda
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Em sua história mais que vencedora no futebol, o Brasil sempre fez uso de um argumento fácil para lidar com suas agruras: a qualidade. Dispor de uma gama de talentos que brotam naturalmente nos clubes sempre fez enxergarmos a vitória e o favoritismo como sintomas naturais a cada Copa do Mundo. É como se o Brasil tivesse a obrigação de vencer apenas por ser melhor, no papel, que qualquer outra equipe.
O ideário da superioridade criou uma expectativa alta e irreal. Segundo pesquisa do Instituto Ipsos Mori, o Brasil é o segundo num ranking de quem mais apresentou uma percepção equivocada sobre sua sociedade. Quanto mais um tema é propagado pela mídia, mais alvo ele é de leituras falsas e argumentos que não encontram fatos. No futebol também é assim. O favoritismo gerado pelo paradigma da superioridade cria uma ideia de que um time nunca perde para um adversário, e sempre para si mesmo. Veja como a lógica na derrota é achar bodes expiatórios. Culpados. Decisões que talharam no campo o que o papel sempre mostrou: uma história pentacampeã.
O futebol de clubes do país é onde essa ideia mais está propagada. A justificativa para essa expectativa alta é a história, o elenco, o quanto se gastou com determinado jogador. Geralmente é o técnico, ou o jogador que erra um lance fatal. Se Fernandinho jogasse por algum clube, com certeza seu carro estaria sendo apedrejado por um aglomerado organizado, ou sua saída seria pedida de imediato. Há tantas outras ações para falar aqui, mas em todas existe um ponto em comum: o ódio a quem erroui.
O brasileiro sempre se pautou no caráter e não no desempenho para explicar seu tempo. E sempre o fez de forma raivosa. Existe um cumprimento de uma insegurança aí. Um ciclo vicioso: a paixão é tão grande que distorce a percepção do potencial de um time ou de um adversário. A expectativa é alta. Mas não sabemos como lidar quando ela não se cumpre. Tal como a criança que chora quando não ganha o que quer, também choramos, raivosos, pelo jogo perdido. No 7 a 1, passamos anos discutindo os fatores da derrota: Felipão, o atraso do futebol, a geração fraca ou Paulinho, que não merece envergar tal camisa.
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marcelo thiago silva kazan brasil bélgica (Foto: REUTERS/Sergio Perez)
Em 1974, Zagallo disse que o Brasil ia fazer um suco de laranja. Era uma alusão a Holanda, sem tradição alguma em Copas. A seleção perdeu de 2 a 0. A Holanda de 1974 é a Bélgica de 2018. A "ótima geração belga" foi caçoada há anos. "Não se preocupe com ela, Tite". Não passaria das quartas por ser um time inventado, fruto do videogame, sem ser raiz como era nutella.
Mas há algo de diferente nesta derrota.
Talvez pela primeira vez na história de uma Copa do Mundo, não se procuram culpados com a mesma energia que se enxerga a realidade. Basta ver como Tite tem seu cargo garantido, ou como Fernandinho e Jesus receberam apoio após um torneio ruim. A expectativa para o hexa era imensa, algo confirmado com o desempenho do Brasil no pré-Copa. O olhar começa a mudar.
Já não enxergamos mais vantagem em apontar culpados e trocá-los a cada derrota. Tampouco pedimos novos jogadores como se essa geração, tão vencedora em seus clubes, não tivesse amor a camisa. A passos largos e lentos, como qualquer mudança de paradigma no mundo, o brasileiro começa a entender que a realidade nunca foi a superioridade de qualidade que provocava um catarse ufanista, mas sim resultado de um processo. Há um começo, meio e fim em todo time de futbeol, e muitas vezes, a derrota é só o começo do que está por vir.
Esse olhar mais maduro e pés no chão não é a remodelação do torcedor em um ser racional - porque ele jamais será. O futebol sempre será lugar para explicações fantasiosas. Acontece que antes, a conversa de bar acontecia no mais alto escalão das decisões, e pautava o futuro de vidas inteiras. Hoje, conseguimos ver que dentro de campo, é preciso uma engrenagem racional e que foque no desempenho.
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Torcida Brasil (Foto: Reuters )
Poucas são as chances tão ricas de amadurecer como essa que se apresenta. Assim como sua imprensa e seus torcedores também tem. Porque ninguém jamais será de ferro para não sentir a dor de uma derrota. Mas ouvimos mais os treinadores. Discordamos menos dele, nutrimos menos ódio pelo jogador que falhou não porque lhe faltou caráter ou hombridade, mas sim porque seu desempenho foi afetado por tantas coisas que é impossível apontar o dedo e construir uma tese única.
Trata-se de um olhar mais humano. Mais adulto. Que diferente o que é do jogo e o que é fora dele. E que dá espaço para as mais ricas e divertidas percepções do bar ou do churrasco em família, sem que isso afete o que de fato está sendo feito. Aquele velho espírito de porco, que nutre um ódio secreto com a seleção para sua tese se validar está morrendo. Já não dizemos "eu disse" com tanta energia como foi no 7 a 1.
O próximo passo é levar essa maturidade para quando os olhos do mundo não estarem nos vigiando. Um duro exercício de crescimento e imaturidade de um futebol que sabe que existem muitas outras Copas do Mundo por vir.
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