por, Silvio Arcanjo Matos Filho*
Quando na última copa do mundo de
futebol a equipe do Brasil foi goleada por 7X1 pela Alemanha, gerou uma
grande decepção nos brasileiros e muita interrogação no que poderia ter
acontecido surgindo daí vários questionamentos que tentaram explicar o
inexplicável.
Disseram alguns especialistas que a
causa foi ausência de planejamento em longo prazo, má gestão e até
corrupção do futebol brasileiro. Jornalistas treinadores, ex-jogadores e
desportistas foram mais específicos e apontaram como determinantes da
derrota, a falta de infra- estrutura no trabalho de base da maioria dos
clubes brasileiros, a interferência maléfica de empresários dos
jogadores, a ausência de uma boa safra de craques na atualidade, a
internacionalização e supervalorização dos atletas muito jovens e
consequente falta de identidade com a “verde e amarela” que tantas
glórias nos proporcionaram.
Afinal os nossos jovens jogadores estão
sendo preparados nas divisões de base para quem e para onde? Eles
adquirem a fama muito cedo e vão servir à nação brasileira ou às várias
nações? Após tantas indagações, a proposta unânime é que é preciso uma
reformulação. Mas, reformular o quê? A política do futebol? Os
dirigentes e empresários, os treinadores e jogadores?
Ou é preciso mudar a concepção atual do
futebol? Que deixou de ser um espaço de entretenimento, de lazer das
famílias com emoção e romantismo para se tornar um espaço mercadológico,
onde prevalece mais a rivalidade, a disputa entre as cores, a
valorização do ter em detrimento do ser e a hegemonia da mídia.
Analogicamente a crise do futebol no
Brasil é semelhante à crise da saúde pública em todos os seus aspectos
seja histórico, social, político, econômico, cultural e antropológico.
Quando o SUS foi criado com a
constituição de 1988 naquele momento, vivíamos uma crise semelhante,
cujo modelo vigente, era considerado defasado, injusto e perverso porque
não atendia aos anseios da maioria da população, e a proposta era
reformulação e ai veio à famosa reforma sanitária com participação da
sociedade organizada e estudiosa e políticos, que originou a mais
audaciosa e abrangente Política de Saúde Pública do país.
O SUS tendo como princípios a
Integralidade, Universalidade e Equidade, inverte a lógica do
atendimento à população que antes era hospitalocêntrica para o acesso ao
sistema através das unidades básicas de saúde e depois se preciso for
referenciar para os hospitais. Prevê como prioridade na distribuição dos
recursos financeiros, além do fortalecimento da atenção básica,
investimento na média e alta
complexidade prioritariamente nos hospitais públicos, seguidos dos
filantrópicos e como forma complementar de assistência à saúde, aos
hospitais privados.
Nesses 26 anos de SUS, muitos avanços
ocorreram, mas também grandes obstáculos e entraves para sua efetivação,
principalmente no que tange à questão do financiamento (tabela Sus
defasada e desvio de recursos), gestão político-partidária em algumas
instituições de saúde, a falta de comprometimento de muitos gestores
municipais e a dificuldade de efetivação do controle social.
E novamente a crise se instala
evidenciada nas queixas da população e comprovada através da dificuldade
de acesso à atenção básica, aos exames de média complexidade, os
hospitais públicos superlotados e os privados fechando as portas.
Trazendo para nossa realidade de Jequié e
região observamos diariamente nos noticiários a queixa da população em
relação à atenção básica de saúde, apesar dos “mais médicos”. Dos cinco
hospitais privados da cidade, dois fecharam as portas, um há muito tempo
não atende ao SUS, um recentemente solicitou o descredenciamento e o
outro também pretende fazê-lo.
Restando somente ao Hospital Prado
Valadares como único exclusivo do SUS, o atendimento de
urgência/emergência e de alta complexidade a uma população referenciada
ou não dos 25 municípios da região, tornando-se com isso a única unidade
hospitalar de porta aberta 24h para tentar aliviar o sofrimento
daqueles que precisam do SUS.
Então surgem os mesmos questionamentos apontados no inicio desse texto:
O quê deu errado? Por que tantos
hospitais estão fechando as portas? Por que a população não consegue em
tempo hábil a realização dos exames para seu diagnóstico de saúde? Por
que os hospitais encontram-se com seus corredores superlotados gerando
desassistência e sobrecarga e desmotivação dos trabalhadores da saúde?
Por que os políticos sempre elegem a saúde como prioridade de governo e
na prática o discurso não se efetiva?
Diante da semelhança, será que estamos
também perdendo o jogo na saúde por 7×1? Será que é hora de nova
reformulação ou bastaria respeitarmos a constituição? Um grande teórico e
defensor do SUS Dr. Gilson Carvalho enfatiza que para melhorar a
situação um bom começo seria o gestor “gastar melhor o pouco que se tem”
* Mestre em enfermagem, professor adjunto da UESB, Diretor Administrativo do HGPV