18/06/2013 - 03h00
Construção e desconstrução
As melhores seleções (Espanha, Itália e Brasil) e os maiores destaques (Xavi,
Iniesta, Pirlo, Neymar e outros) brilharam na primeira rodada da Copa das
Confederações.
Xavi e Pirlo possuem várias semelhanças. Por causa da idade, deverão deixar
as seleções após a Copa do Mundo. Os dois atuam de uma intermediária à outra.
Não são volantes nem meias. São armadores, defensivos e ofensivos. Pirlo se
destaca ainda pelos passes longos e pelas jogadas de bola parada. Já Xavi, por
saber o momento exato de dar um passe difícil e decisivo. Raramente, dá a bola
para o outro time.
O Brasil, desde Falcão e Cerezo, não tem um craque no meio-campo. Há muitos
bons jogadores. Não tem porque não quis ter. Não é por entressafra. Durante
muito tempo, os técnicos dividiram o meio-campo entre os que marcam e atuam do
meio para trás e os que atacam e atuam do meio para a frente.
Se um Pirlo e um Xavi chegassem às categorias de base de um clube brasileiro,
seriam meias ofensivos ou alas.
Xavi e Iniesta se completam. Xavi é mais volante, organizador, passador,
técnico, e Iniesta, mais meia, ofensivo, habilidoso, driblador, insinuante. Como
nada é perfeito --Pelé foi a exceção--, Xavi e Iniesta não são ótimos
finalizadores.
Por isso, por não querer perder a bola e, principalmente, por não ter um
excelente atacante, a Espanha faz poucos gols. Soldado mostrou, mais uma vez,
que é melhor que Fernando Torres e David Villa.
O Brasil não tem um Xavi, um Iniesta, um Pirlo, mas possui Neymar no ataque.
Ele não está ainda pronto, mas tem grandes chances de se tornar, nos próximos
anos, um fenômeno mundial.
Escrevi, após a vitória sobre o Japão, que o Brasil já tem um time. Isso não
significa que seja um grande time, que jogue do jeito que gostaria --sonho com
outro futebol--, que não tenha deficiências individuais e coletivas nem que
esteja pronto.
Ninguém está, nem Alemanha e Espanha. Temos todos os dias algo a aprender.
Estamos sempre em construção, reconstrução e desconstrução.
O Brasil não tem um grande time, mas já tem um time, com uma estratégia
definida e com jogadores que cumprem o que foi estabelecido.
Felipão sabe o que quer e sabe como fazer, mesmo com alguns conceitos
equivocados, ultrapassados ou que não aprecio. Pior é o técnico confuso,
indeciso.
Os treinadores costumam achar que as vitórias são sempre decorrentes de suas
estratégias. As derrotas são por outros motivos.
Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do
Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de
descolamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV
Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão
impressa de "Esporte".